Valmar

"Uma parte da nossa alma permanecerá sempre viva na memória dos que nos conhecem. (…) Ao contrário da visão atual da morte como um final irrevogável, ou um momento de acerto de contas, para os celtas esse era um momento intermediário. ‘A morte é o meio de uma longa vida’, disse o poeta Lucano. Para comprovar a visão celta da morte como algo que nem de longe deve ser visto como negativo, evoco as palavras do autor irlandês John O’Donoghue, segundo quem ‘a morte nasce conosco, e conosco caminha por todos os instantes de nossas vidas’, mesmo que tentemos ignorá-la. Até o dia em que ela, finalmente, se apresente. Se travarmos contato com ela antes, se percebemos que ela sempre estivera conosco, manifestando-se a cada fim de ciclo - seja este um dia, um amor, uma viagem ou uma vida, então seremos capazes de encarar esse momento com a alma leve e a certeza de que tudo é cíclico, e que tudo se renova através dessa ciclicidade - inclusive nós."

Claudio Crow Quintino - O livro da Mitologia Celta

"O medo da morte surge do medo da vida. Um homem que vive uma vida plena está preparado para morrer a qualquer momento. Quando nos lembramos de que somos todos loucos, desaparecem os segredos e surge a compreensão da vida."

Mark Twain.

"Temos que esperar até que nossa morte nos diga que está na hora.

- A sua morte diz a você? - Perguntou Lyra.

- Diz. O que descobrimos quando viemos para cá, ah, isso faz muito tempo para a maioria de nós, mas descobrimos que todos nós trazíamos o espectro de nossa morte conosco. Foi aqui que descobrimos. Tinha estado conosco o tempo todo, só que não sabíamos. Sabe, todo mundo tem sua morte. Ela nos acompanha a todos os lugares, durante a vida inteira, está sempre por perto. Os espectros de nossas mortes, eles estão lá fora, tomando ar; eles entram de vez em quando. O da vovó está lá com ela, ele está bem perto dela, muito perto.

- Isso não assusta o senhor, ter sua morte por perto o tempo todo? - perguntou Lyra.

- Por que me assustaria? Se ela está por perto, você pode ficar de olho nela. Eu ficaria muito mais nervoso se não soubesse onde está.

- E todo mundo tem sua própria morte? - perguntou Will, com surpresa e admiração.

- Mas claro que tem, no momento em que você nasce, sua morte vem ao mundo junto com você e é sua morte que o leva embora.

- Ah - exclamou Lyra -, é disso que precisamos saber, porque estamos tentando encontrar o mundo dos mortos e não sabemos como chegar lá. Então para onde vamos, quando morremos?

- Sua morte bate em seu ombro, pega sua mão e diz: venha comigo, está na  hora. Pode acontecer quando você está doente, com uma febre, ou quando se engasga com um pedaço de pão seco, ou quando cai de um prédio alto; no meio de seu sofrimento e de suas dificuldades, ela vem gentilmente procurar você e diz: agora vamos com calma, calma, criança, venha comigo, e você vai com ela num barco que atravessa o lago coberto de neblina. O que acontece lá, ninguém sabe. Ninguém nunca voltou para contar.

(…)

-Então - propôs Tialys -, vamos fazer um acordo. Em vez de verem somente a maldade, a crueldade e a cobiça dos fantasmas que vêm aqui para baixo, de agora em diante vocês terão o direito de pedir a cada fantasma que lhes conte a história de sua vida e eles terão que contar a verdade sobre o que viram e tocaram, ouviram, amaram e conheceram no mundo. Cada um desses fantasmas tem uma história; cada um deles que descer no futuro terá coisas verdadeiras para contar a vocês sobre o mundo. E vocês terão o direito de ouvi-los e eles terão que contar.

(…)

A tarefa de vocês será guiar os fantasmas do local de desembarque, na margem do lago, durante todo o caminho pela terra dos mortos, até a nova abertura para o mundo. Em troca eles lhes contarão suas histórias, como pagamento justo e certo por essa orientação. Assim lhes parece correto?

Sem-Nome olhou para suas irmãs e elas assentiram. Então disse:

- E teremos o direito de recusar guiá-los se mentirem ou se esconderem alguma coisa, ou se não tiverem nada para nos contar. Se viveram no mundo, eles deveriam ver e tocar, ouvir, amar e aprender coisas. Faremos uma exceção no caso de crianças muito pequenas que não tiveram tempo de aprender coisa nenhuma, mas caso contrário, se descerem até aqui sem trazer nada, nós não os levaremos até a saída.

(…)

-Isso é o que vai acontecer - declarou -, e é verdade, absolutamente verdade. Quando saírem daqui, todas as partículas que os constituem se desprenderão e flutuarão se dispersando, exatamente como aconteceu com seus daemons. Se já viram pessoas  morrerem, sabem como é. Mas seus daemons não são simplesmente nada agora; eles fazem parte de tudo. Todos os átomos que eles eram fazem parte do ar e do vento, das árvores, da terra e de todas as coisas vivas. Eles nunca desaparecerão. Apenas fazem parte de tudo. E é exatamente o que vai acontecer com vocês, juro, dou a vocês minha palavra de honra. Vocês vão se dispersar, é verdade, mas estarão lá fora ao ar livre, novamente fazendo parte de tudo que está vivo.”

Philip Pullman - A Luneta Âmbar - Fronteiras do Universo

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